
O
VELHINHO
Homenagem a meu Pai

Chegaram-me os meus
melhores anos.
Agora, supostamente
enfraquecido e velho, é que sou forte - porque resistente aos perigos que
acompanham grande parte dos jovens, com seu temperamento intempestivo. Penetro
agora a essência das coisas, tudo passo a entender.
A suavidade cerca os meus
passos, as minhas atitudes.
Tenho os gestos lentos, os
olhos meigos.
O sorriso doce, sincero,
descompromissado.
Meus ouvidos delicados
percebem o bulício da natureza, o cicio dos pássaros, o murmúrio do vento que
traz a voz dos que me antecederam e falam das maravilhas que me esperam. Não
mais os sons frenéticos, estridentes, desgastantes. Os melhores anos da minha
vida, não passei entre os convites incertos da minha juventude. Chega-me o
entardecer. Com ele, o acúmulo da experiência dos dias somados, a certeza do
melhor.
Sou velho - espiritualmente
jovial e forte.
Não entendo nada - mas
percebo tudo.
Não sou mais necessário -
no entanto jamais serei esquecido, senão mais lembrado, à medida que os jovens
que me conhecem rejuvenescerem... envelhecendo.
Observe como são calmos os
meus olhos. Eles já não refletem mais a chama das paixões indômitas, as chispas
do orgulho, as farpas do desafio. As minhas mãos... trêmulas, já não se prestam
a qualquer combate. Mãos que foram sempre afeitas ao trabalho digno, terminarão
seus dias afagando, abençoando.
Em tudo noto a sublime
presença do amor. Eles, os jovens na idade, também pensam que notam, mas não;
não como eu. Os anos dão-me essa certeza.
Quando as crianças e os
mais moços se acercam fazendo troça, eu penso, que pena... falta-lhes muito
ainda para começarem a ser felizes de verdade. Somente quando os anos
enfraquecerem seus corpos vigorosos e trouxerem as dores precursoras da
reflexão, é que começarão a sê-lo verdadeiramente. Porque só a conquista final,
desprovida de ilusões, é definitiva. As outras, efêmeras, não obstante a
importância que tem, dissolvem-se passageiras.
Sabe, eles não percebem
que, sentado em meu banquinho, quietinho, eu viajo, passeio muito mais, e às
vezes mais me divirto do que eles, observando as coisas que eles não vêem.
Quando fazem pouco da minha senectude, eu sorrio... Meu sorriso é de paz.
Dizem até que os velhos são
avarentos, mas eu não sou - embora traga agarrado a mim o mais valioso dos
tesouros, que vigio atentamente e procuro manter limpo, bem guardado. É idêntico
ao que se encontra escondido no peito de cada um, num bauzinho de forma
singular, chamado coração. (E que somente os anos que eles tanto temem, os fará
descobrir inteiramente e utilizar com maior proveito.)
Que bom se eu pudesse
esperá-los aqui e oferecer-lhes um lugarzinho a meu lado, para que pudessem
sorrir comigo, para as pessoas que passam apressadamente e não nos prestam
atenção.
Mas quando eles forem moços
-moços como eu -, já não estarei mais aqui. Talvez passeando por aí em uma
branca e macia nuvenzinha em forma de banquinho e sobre todos derramando a minha
alegria, a minha vibração de amor...

Luiz Antonio Jesus Santos

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