
A
MATERNIDADE EM MINHA VIDA

Em mais de vinte anos de
vivência na medicina, já presenciei inúmeras cenas e situações que me marcaram.
Porém, se eu tivesse que escolher a cena que mais me marcou como médica,
escolheria a que mais me marcou como mãe.
Foi em uma visita a uma UTI
(Unidade de Terapia Intensiva), local onde geralmente os pacientes estão em
estado grave, necessitando de cuidados o tempo todo. Foi neste ambiente frio,
cheio de aparelhos e medicamentos, que vivenciei a importância da maternidade.
Não se tratava de uma
paciente gráfica. Quem me chamou a atenção foi um velho homem, aparentando bem
mais de oitenta anos, deitado em posição fetal, que gritava em meio ao seu
delírio:
"Mamãe! Mamãe! Ah, minha
mãe..."
Para uma pessoa no fim da
vida, doente, com a consciência comprometida, o que lhe restara era chamar por
sua mãe. De toda uma vida o que lhe restou foi clamar por sua mãe; e era um
clamor que vinha do seu coração, da sua alma.
Somente quem poderia
acolher sua dor, sua solidão, naquele momento, era sua mãe!
Todos os sons e ruídos da
UTI desapareceram frente ao chamado choroso daquele homem que, no fim da vida,
insistia em resgatar a mais importante de suas memórias: a sua mãe.
Naquele momento, a médica
deu lugar à mãe e me dei conta do quanto importante é ser mãe... Quando Deus
escolheu a mulher para acolher a vida em seu ventre, deu-lhe a responsabilidade
de gerar seres humanos que são a imagem d'Ele. E para isto lhe deu uma infinita
capacidade de amar, renunciar e esperar.
Amar, sem impor condições.
Renunciar a tudo! Até a si mesma, pelos filhos, e esperar com muita paciência
todas as condições que a vida lhe apresentar. A começar pela espera de nove
meses para que a vida em seu corpo se torne vida para o mundo.
Durante a gestação a mulher
é a perfeita moradia. É no corpo da mulher que Deus fez a primeira morada de
todo ser humano. E é neste corpo sagrado que abriga a vida, que a mulher
experimenta a plenitude de ser mulher... Quando seu ventre cresce, seu corpo
ganha novas formas, as mamas se preparam para alimentar sua cria, todo o ser
feminino se enche de glória para esperar o dia de dar a vida a um novo ser... E
depois, fora do nosso corpo, acompanhamos toda uma trajetória.
Somos o porto seguro
Para passos cambaleantes...
Para abraços aflitos...
Para choros carentes...
Por mais que os homens
cresçam e envelheçam somos nós, as mães, que ficamos em suas memórias.
Aquele velho homem, me
mostrou o quanto importante é o papel da mãe para todo ser humano.
Fez-me também questionar
porque tantas meninas na idade de serem filhas e não mães, violentam seus
corpos. Maquiadas por uma falsa liberdade, colocam em risco suas e outras vidas
inocentes, com a desculpa de serem modernas.
O corpo sagrado é violado
e, muitas vezes, jovens, quase crianças, tornam-se mães, perdendo a oportunidade
de vivenciarem com plenitude o divino mistério da vida.
Depois daquele dia na UTI,
acrescentei mais uma responsabilidade ao meu papel de mãe.
Pode ser que um dia, quando
a gente pensa que os filhos não precisam mais de mãe, que a gente seja a última
lembrança na vida deles.
E quero ser não só a última
lembrança, mas a melhor!

Dra. Marinei Nogueira Rubez
Médica Dermatologista - Cruzeiro/SP
Fonte: Revista Canção Nova - Maio 2006

|