
MEDO
DE PERDER

Um dos maiores obstáculos
para uma vida plena, harmônica, mais expressiva e significativa, é o medo de
perder; sobretudo, o medo de perder alguém, o mede de perder alguém que nós
dizemos amar, o medo de perder a esposa ou esposo, os filhos, os amigos, o
patrão, o empregado, o cliente. Esta emoção é a principal responsável pelo nosso
sofrimento vital. O medo de perder é o medo de nos tornarmos dispensáveis para a
pessoa com a qual nos relacionamos. O medo de perder se reveste de mil e uma
formas, aparece sob mil disfarces: medo de sermos importantes, medo de não
sermos ilustres, medo de sermos menosprezados, medo de não sermos amados, medo
da solidão. E tudo isso pode ser designado mais claramente por uma palavra:
ciúme.
O ciúme é o medo de não
ter alguém, de não possuir alguém, de não vir a ser dono de alguém. Na relação
ciumenta, colocamos nós e o outro como objetos. Nesta relação, pessoa e objeto
são a mesma coisa. No ciúme, temos medo de sermos algum dia considerados
inúteis, dispensáveis a outra pessoa. Esta é a emoção do sofrimento, a emoção do
apelo, a emoção da relação confusa, misturada, dependente. E o que a agrava é
que na nossa cultura aprendemos do ciúme como sendo amor. E o ciúme é justamente
o contrário. O ciúme é o oposto do amor. Na relação amorosa, existe identidade:
"Eu sou, independente de você!" Na relação ciumenta, por outro lado, na
relação objetal, perde-se a identidade: "Eu, sem você, não valho nada. Você é
tudo para mim!" O amor é solto, é livre, vem de querência íntima, está
diretamente ligado ao sentido de liberdade, de opção, de escolha. O ciúme
prende, amarra, condiciona, determina. "Com esta emoção, eu já não sou eu;
sou o que o outro quer que eu seja. E eu sou o que o outro quer que eu seja,
para que ele também seja o que eu quero que ele seja." No ciúme, há um pacto
de destruição mútua, em que cada qual usa o outro como garantia de que não
estará sozinho: "Eu me abandono para que o outro não me abandone, eu me
desprezo para que o outro não me despreze, eu me desrespeito para que o outro
não me desrespeite, eu me destruo para que o outro não me destrua."
O ciúme é o medo de ser
dispensável a alguém, e o mais grave talvez esteja aqui: passamos a vida inteira
com medo de nos tornarmos para os outros um dia o que nós já somos - totalmente
dispensáveis. O homem é, por definição, dispensável, transitório, efêmero,
aquilo que passa - e isto é bastante real. Em todas as relações que temos hoje
somos substituíveis. O mundo sempre existiu sem nós, está existindo conosco e
continuará a existir sem nós. Nós somos necessários aqui e agora, mas seremos
dispensáveis além e depois. O medo de ser dispensável a alguém é o mesmo medo da
morte, que também é real. O medo da morte é o ciúme da vida. é a vontade falsa,
irreal, de sermos eternos, permanentes e imutáveis. O medo de perder nos leva a
entender que as coisas só valem a pena se forem eternas, permanentes, duráveis.
Uma relação só tem valor, neste caso, se tivermos garantia de que sempre será
assim como é. E como tudo é transitório, como tudo é mutável, como tudo é
passível de transformação, o medo de perder nos leva a um estado contínua de
sofrimento.
As conseqüências do ciúme
são muita claras: "Se eu tenho medo de que me abandonem, de me tornar
dispensável a alguém, de que não me amem, ao invés de fazer tudo para ser cada
vez mais, para ser cada vez melhor, eu vou gastar toda a minha vida, todas as
minhas energias para provar aos outros que eu já sou o mais, que eu já sou o
melhor, que eu já sou o primeiro. Ao invés de empenhar esforços para ser um
marido, um pai ou mãe cada vez melhor, um chefe cada fez melhor, uma empregada
cada vez melhor, eu gasto minhas energias para provar à minha mulher, aos meus
amigos, aos meus filhos, ao meu marido, ao meu chefe, ao meu empregado, que eu
já sou o melhor pai do mundo, o que é mentira; o melhor marido do mundo, o que é
mentira; o melhor amigo do mundo, o que é mentira; o melhor chefe do mundo. o
que é mentira/ o melhor empregado do mundo, o que é mentira!", e assim por
diante.
O ciúme nos conduz ao
delírio da onipotência. Os nossos atos, as nossas iniciativas, a nossa conversa,
o nosso comportamento, as nossas considerações, tudo é para mostrar aos outros
que nós já somos bons, fortes, capazes e perfeitos. Aqui está a diferença
básica, fundamental, entre o medo de perder e a vontade de ganhar. O medo de
perder é assim: "Ganhamos, ninguém vai nos tomar. Gastaremos todas as
energias para defender o que nós já possuímos, para conservar o que já ganhamos.
Nós já chegamos ao ponto máximo, só temos que perder". A vontade de ganhar,
por outro lado, é assim: "Estaremos sempre ativos, descobrindo novas
oportunidades do ganho. Procuraremos ganhar cada vez mais, ao invés de nos
preocuparmos com possíveis perdas. O que nós temos de mais sagrado é a nossa
própria vida, e esta, nós já vamos perder. Todas as outras perdas são
secundárias. O medo de perder é reativo, defensivo, justificativo. As pessoas
ciumentas estão sempre com um pé atrás e outro na frente. Sempre se prevenindo
para não perder, sempre se preparando, sempre se conservando." As pessoas
com vontade de ganhar estão sempre ativas, sempre optando, arriscando. O medo de
perder é a vivência do futuro, é a vivência antecipada do futuro, é preocupação.
A vontade de ganhar, por outro lado, é a vivência do presente, é a vivência da
beleza do presente. Em tudo, a cada momento, existem riscos e existem
oportunidades. No medo de perder, a pessoa só vê os riscos. Na vontade de
ganhar, a pessoa vê os riscos mas, sobretudo, vê também as oportunidades. Cada
momento da vida é um desafio para o crescimento. A vontade de ganhar, a qual nos
referimos, não significa ganhar de alguém, mas ganhar de si mesmo, ser cada vez
mais, estar sempre disposto a dar um passo à frente, estar sempre disposto a
crescer um pouco mais. É importante termos sempre para nós que hoje podemos
crescer um pouco mais do que éramos ontem; descobrir que ninguém chegou ao seu
limite máximo, e que idade adulta não significa que chegamos ao máximo de nossa
potencialidade. Não existe pessoa madura. Existe, sim, a pessoa em
amadurecimento. Todo o nosso sofrimento vem de uma paralisação do crescimento
pessoal e cada um de nós sabe muito bem onde paralisou, onde a nossa energia
está bloqueada, onde não está havendo expansão da nossa própria energia.
Ainda não vimos, até hoje,
um relacionamento se deteriorar sem uma presença marcante do ciúme, do desejo de
sermos donos da outra pessoa, de uma ânsia de mais poder e controle sobre os
pensamentos, os sentimentos e as ações da pessoa a quem dizemos amar. O ciúme é
a doença do amor, é o profundo desamor a si mesmo e, conseqüentemente, um
desamor ao outro. Pelo ciúme, se estabelece uma relação dominador/dominado. O
ciúme é a dor da incerteza com relação aos sentimentos de alguém no futuro. É a
tristeza de não saber o que vai acontecer amanhã. Aliás, o que dói no ciúme é a
insegurança do futuro, é a insegurança do desconhecido. A loucura está ai:
Passamos a vida inteira tentando conseguir o que jamais conseguiremos - a
segurança! A segurança não existe, não existe nada. Ser seguro não significa
acabar com a insegurança, mas aceitá-la como inerente a natureza do homem.
Ninguém pode acabar com o risco do amor. Por isso, só é possível estarmos em
estado de amor, se sabemos estar em estado de risco. Desperdiçamos o único
momento que temos, que é o agora, em função de um momento inexistente, o futuro.
Parece que as pessoas só valem para nos nos futuro. Nos não curtimos hoje o
relacionamento com a mulher, com os filhos, com os amigos, sofrendo pela
possibilidade de um dia não sermos queridos por eles.
O filho, por exemplo,
parece que só nos é importante amanhã quando crescer, se formar, quando casar,
quando trabalhar, etc. Até hoje ainda não conhecemos um pai preocupado com o
futuro dos filhos que estivesse brincando com eles. Em geral, não têm tempo
porque estão muito preocupados em assegurar-lhes um futuro brilhante.
O ciúme é a incapacidade
de vivenciarmos hoje a gratuidade da vida. Hoje é o primeiro dia do resto da
nossa vida, querendo ou não. Hoje estamos começando, e viver é considerar cada
segundo de novo. A cada dia, o seu próprio cuidado. O medo daquilo que me pode
acontecer tira minha alegria de estar aqui e agora, o medo da morte tira-me a
vontade de viver, o medo de perder alguém tira-me a beleza de estar com ele
agora. Alias, quando temos medo de perder alguém, é porque imaginamos que as
pessoas são nossas. Ninguém pode perder o que não tem e nos sabemos que ninguém
é de ninguém. Cada pessoa é única e exclusivamente dela mesma. Esta é outra
falsidade. Podemos perder um livro, um isqueiro, um baralho, uma bolsa, porém
jamais uma pessoa.
O sinônimo do medo de
perder é a obsessão do primeiro lugar. O que é a obsessão do primeiro lugar? É
colocarmos nos outros a tarefa impossível de sermos sempre os primeiros em todos
os lugares e em todas as circunstâncias. Se é em casa, queremos ser o primeiro;
no trabalho, queremos ser o primeiro; numa reunião, queremos ser o primeiro; no
futebol, queremos ser o primeiro; num assunto específico, queremos ser o
primeiro; e em outro assunto qualquer, sempre o primeiro.
O primeiro lugar é
amarelante, deteriorante, ao passo que o segundo lugar é esperançoso, é
reverdejante, pois quando alguém chegou ao cume da montanha, só lhe resta um
caminho: - começar a descer.
No segundo lugar, ainda
temos para onde ir, para onde crescer. A postura do segundo lugar nos leva ao
crescimento, ao crescimento contínuo. Por que você não se decreta no segundo
lugar, mesmo quando esteja ocupando socialmente e eventualmente o primeiro
lugar? O segundo lugar, não em relação ao outro, mas em relação a você mesmo, ou
seja, ainda temos por onde crescer e melhorar. Você sabe por que o mar é tão
grande, tão imenso, tão poderoso? É porque teve a humildade de se colocar alguns
centímetros abaixo de todos os rios do mundo. Sabendo receber, tornou-se grande.
Se quisesse ser o primeiro, alguns centímetros acima de todos os rios, não seria
o mar, mas uma ilha. Toda a sua água iria para os outros e ele estaria isolado.
E, além disso, a perda faz parte, a queda faz parte, a queda, o erro e a morte.
Precisamos aprender a perder, a cair, a errar e a morrer. Não é possível ganhar
sem saber perder, não é possível andar sem saber cair, não é possível acertar
sem saber errar, não é possível saber viver sem saber morrer. Em outras
palavras, se temos medo de cair, andar será muito doloroso; se temos medo da
morte, a vida é muito ruim; se temos medo da perda, o ganho nos enche de
preocupações. Esta é a figura do fracassado dentro do sucesso. Pessoas que
quanto mais ganham, quanto mais melhoram na vida, mais sofrem. Para a pessoa que
tem medo de ficar pobre, quanto mais dinheiro tem mais preocupada fica; para a
pessoa que tem medo do fracasso, quanto mais sobe na escala social, mais
desgraçada é a sua vida.
Em compensação, se você
aprende a perder, a cair, a errar, ninguém o controla mais. Pois o máximo que
pode acontecer a você é cair, é errar, é perder, e isso você já sabe.
Bem-aventurado aquele que já consegue receber, com a mesma naturalidade, o ganho
e a perda, o acerto e o erro, o triunfo e a queda, a vida e a morte.

Antônio Roberto Soares
Psicólogo

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