
SENTIMENTO DE CULPA

Responsável por grande
sofrimentos psicológicos, um dos sentimentos mais arraigados dentro de nós, que
se esconde atrás de nossas tristezas e frustrações, de nossas insatisfações na
vida, de nosso tédio e angústias está o SENTIMENTO DE CULPA.
A culpa é um apego ao
passado; é uma tristeza por ter cometido algum erro que não deveria. O núcleo do
sentimento de culpa são estas palavras: "não deveria". A base da grande tortura
da culpa é a frustração pela distância entre o que não fomos e a imagem de como
nós deveríamos ter sido. É a tristeza por não sermos perfeitos, por não sermos
infalíveis; um profundo sentimento de impotência. E o mais grave é que
aprendemos que o sentimento de culpa é uma virtude.
A culpa nos faz gastar
energia numa lamentação interior por aquilo que já ocorreu ao invés de gastarmos
em novas coisas, novas ações de novos comportamentos. É um comportamento
considerado doentio em todas as linhas terapêuticas.
A culpa é o auto-desprezo
não aceitando nossos limites e fragilidade à frente das circunstâncias da vida.
É uma vingança de nós mesmos, por não termos preenchido a expectativa de alguém
a nosso respeito; seja essa expectativa clara e explícita ou seja uma
expectativa interiorizada no decorrer da vida. Ao nos sentirmos culpados estamos
alienados de nós mesmos. A nossa recriminação interna, é nada mais do que as
vozes recriminatórias de nossos pais, mães, professores ou outras pessoas ainda
dentro de nós.
Para trabalhar o sentimento
de culpa é primordial descobrir as convicções falsas que existem em nós. A
expectativa perfeccionista da vida é um produto da nossa fantasia. Achamos que é
possível viver sem cometer erros. Quanto maior é a discrepância entre a
realidade objetiva e a nossa fantasia, entre aquilo que podemos nos tornar
através de nosso verdadeiro potencial e os conceitos idealistas impostos, tanto
maior será o nosso esforço na vida e maior nossa frustração. Respondendo a essa
crença opressora da perfeição, atuamos num papel que não tem fundamento real nas
nossas necessidades. Nós nos tornamos falsos, evitamos encarar de frente as
nossas limitações e ao desempenharmos papéis sem base em nossa capacidade,
construímos dentro de nós um inimigo que é o ideal imaginário de como deveríamos
ser e não de como realmente somos.
As pessoas sempre dizem que
os seus sentimentos de culpa vêm dos seus erros, pois há uma relação nos nossos
paradigmas mentais que culpa pressupõe erro. Acreditam que culpa é uma
decorrência natural do erro, que não pode haver de maneira nenhuma culpa sem
erro. Isso é profundamente falso. Uma coisa é o erro e a outra é a culpa. São
duas coisas distintas, separadas e que nós unimos de má fé, a fim de não
deixarmos saída para o nosso sentimento de culpa.
O erro é o modo de se fazer
algo diferente, fora de algum padrão de algum modelo determinado que hoje pode
ser errado e amanhã, não. Pode ser errado num país e não no outro.
A culpa é o sentimento que
vem de nós. Vem da crença de que é errado errar, que devemos ser castigados
pelas faltas cometidas. Crenças de que a cada erro deve corresponder,
necessariamente, um castigo. O sentimento de culpa é a punição que damos a nós
mesmos pelo erro cometido.
O erro é inerente à
natureza humana, ele é necessário à nossa vida; só crescemos através do erro. O
erro é uma demonstração de como eu sou, quando der ouvidos aos meus erros; ao
invés de me lamentar por dentro, terei crescido.
Se a culpa é a vergonha da
queda, o auto-perdão é o elo entre a queda e o levantar de novo. O auto-perdão é o
recomeço da brincadeira depois do tombo. Eu me perdôo pelos erros cometidos, por
não ser perfeito, pela minha natureza humana, pelas minhas limitações. Eu me
perdôo por não ser onipotente, onipresente. O perdão é sempre a si mesmo. É
pessoal e intransferível. O perdão aos outros é somente um modo de dizermos aos
outros que já nos perdoamos.
Perdoarmo-nos é
restabelecer a nossa própria unidade. A nossa inteireza diante da vida e unir
outra vez o que a culpa dividiu. É uma aceitação integral daquilo que já
aconteceu, daquilo que já passou, daquilo que já não tem jeito. É o encontro
corajoso e amoroso com a realidade.
Somente aqueles que já
desenvolveram a capacidade de auto-perdão conseguem energia para uma vida sadia
psicologicamente. A criança faz isso muito bem. O perdão é a própria aceitação
da vida do jeito que ela é, nos altos e baixos. É a capacidade de dizer adeus ao
passado, é um sim à vida que nos rodeia agora, é uma adesão ao presente.
O auto-perdão é a paciência
diante da escuridão. É um vislumbre da aurora no final da noite. É o sacudir a
poeira, é a renovação da auto-estima e da alegria de viver, é o agradecimento
por sabermos que mais importante do que termos comedido um erro é estarmos
vivos; é estarmos presentes.
Não tenha medo de erros;
erros não são pecados; erros são formas de fazer as coisas de maneira diferente,
talvez criativamente nova. Não seja um perfeccionista. É uma maldição, uma
prisão, quanto mais você treme mais erra o alvo. Não fique aborrecido por seus
erros; alegre-se por eles; você teve a coragem de dar algo de si.

Sonia Maria Milano

|